Região das Ilhas do Guaíba e Eldorado do Sul se dividem entre o esvaziamento e a espera dos que ficaram
Exatos 18 meses depois da maior enchente da história do Rio Grande do Sul, as marcas da tragédia ainda moldam o cotidiano de milhares de famílias e expõem o tamanho do desafio da reconstrução. Entre promessas de obras, remoções em andamento e programas habitacionais ainda em fase de execução, cidades como Eldorado do Sul e comunidades inteiras das Ilhas do Guaíba – bairro Arquipélago, em Porto Alegre – seguem tentando se reerguer, enquanto o poder público corre contra o tempo para evitar que novas cheias repitam o cenário de destruição.
O desastre de maio de 2024 afetou grande parte do território gaúcho. Na Capital, foi no dia 3 de maio que a água começou a tomar as ruas de regiões como o Centro Histórico, Quarto Distrito e zona Norte. Mesmo após um ano e meio, o tempo parece ter parado naquela data. Casas demolidas e ruas que ainda apresentam sinais da inundação fazem parte da paisagem, enquanto moradores se dividem entre a esperança da nova moradia e a incerteza sobre o futuro.
Em Eldorado do Sul, uma das cidades mais atingidas na Região Metropolitana de Porto Alegre, a reconstrução avança lentamente. O governo do Estado assinou, em agosto, o contrato de atualização do anteprojeto do sistema de proteção contra cheias, que deve revisar o antigo plano de diques e estações de bombeamento.
O investimento de R$ 3,7 milhões, financiado pelo Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs), marca o início de uma obra, cuja estimativa é de que deverá custar mais de R$ 530 milhões. Conforme o cronograma anunciado em agosto, as obras de atualização do sistema de proteção de Eldorado do Sul devem ser concluídas no início de 2026.
A promessa é de um projeto moderno, com pôlderes, galerias e reservatórios capazes de proteger o município. A proposta ampliará a proteção nos bairros Cidade Verde, Vila da Paz, Chácara, Loteamento Popular, Medianeira, Centro, Residencial Eldorado e Centro Novo, assim como em uma área não urbanizada localizada a oeste do Bairro Chácara.
Apesar do andamento da atualização, para quem ainda vive nos locais afetados, o sentimento é de angústia. O aposentado Sérgio Luis Grunes, 63 anos, mora há quase três décadas no final da avenida Lucas Espíndola, no bairro Cidade Verde, e já perdeu a conta das enchentes que enfrentou. Ele será reassentado, mas ainda aguarda a entrega da nova moradia.
“Ganhei a casa, mas ainda não recebei a chave. Moro aqui há 30 anos, já peguei umas 30 enchentes. Agora não tem mais jeito, esse lado vai sair todo, vai ser demolido. A prefeitura disse que vão tirar tudo pra construir o dique”, relata.
O monitor escolar Marcone Batista Parodes, 48 anos, também espera ser realocado. Morador da região desde 1982, perdeu tudo para as enchentes, mesmo vivendo em uma casa de dois andares. Sem ter outro lugar para ir, a família passou a ocupar apenas o piso superior, enquanto aguarda por algum programa habitacional.
Ele conta que muitas famílias deixaram a cidade, cansadas da instabilidade e das perdas sucessivas. “Todo ano é duas, três vezes com água atingindo as casas. No ano passado foi a pior, pegou até a parte de cima da casa. A gente desanima”, relata.
Parodes e Grunes estão entre os poucos que permaneceram na área que se modificou, definitivamente, após a enchente. “Muitas casas foram abandonadas e outras foram demolidas pelas águas. E quem ficou vive com medo, esperando sair o dique ou ser realocado”, completa Parodes.
Nas Ilhas, esvaziamento é visível
Em Porto Alegre, o cenário não é muito diferente. A região das Ilhas do Guaíba, talvez a mais afetada da Capital, passa por um processo de esvaziamento silencioso. Quem circula pelas ruas da Ilha da Pintada percebe o contraste daqueles que ficaram – em sua maioria, pescadores -, e os escombros das residências completamente arruinadas pelas cheias. Na Ilha das Flores, em que grande parte das moradias estava localizada às margens da BR 116, o cenário ainda é de destruição.
No bairro Arquipélago, muitas famílias já deixaram suas casas por meio do programa Compra Assistida, que permite adquirir outro imóvel com recursos destinados pelo governo federal. Dados do Departamento Municipal de Habitação (Demhab) indicam que, até o momento, 1.360 contratos já foram registrados, enquanto outros 420 estão em fase de escolha de imóvel.
Apesar do avanço, a morosidade ainda atrasa a vida de quem perdeu tudo. Moradora da Ilha dos Marinheiros, Marta Zakowicz, de 65 anos, foi uma das mais recentes contempladas. Depois de meses de espera e desencontros no cadastro, conseguiu – pelo Compra Assistida – adquirir um apartamento no bairro Humaitá, na zona Norte de Porto Alegre.
“Demorou, mas saiu. Eu fui uma das primeiras a me cadastrar, mas sumiram com meus dados e tive que correr atrás para resolver. Agora estou me ajeitando, mas muita gente ainda espera. É um processo lento e tem quem desanime”, conta.
Com a definição sobre a nova moradia, Marta permanece com uma neta na casa do namorado enquanto realiza a limpeza do apartamento, mas projeta se mudar em breve. A antiga casa, condenada pelos danos deixados pela enchente, é utilizada para guardar os móveis e demais itens que levará para o local do recomeço.
Outros vizinhos, entretanto, seguem vivendo entre casas condenadas e estruturas improvisadas. Ao mesmo tempo, residências de alto padrão foram recuperadas e movimentam o comércio local e as empresas de segurança presentes no bairro.
Também é na Ilha dos Marinheiros que está localizada a Ilha do Grêmio, uma área de lazer utilizada pelos associados, que segue fechado e com marcas das enchentes. Em seu site, o clube informa apenas que o espaço não está aberto para visitação do público e afirma que atualizará quando ocorrer a reabertura.
