Relatório da OMS mostra impacto do isolamento entre idosos, enquanto dados do Ministério da Saúde revelam explosão de casos de depressão e ansiedade em jovens
A solidão foi classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das maiores ameaças à saúde global. Segundo o relatório From loneliness to social connection – charting a path to healthier societies, divulgado em junho de 2025, uma em cada seis pessoas no mundo vive em solidão, condição associada a mais de 871 mil mortes anuais. O isolamento aumenta o risco de depressão, ansiedade, pensamentos suicidas e doenças como AVC e diabetes tipo 2.
Nas Américas, cerca de um em cada sete habitantes convive com a solidão. Entre 2014 e 2019, foram 87 mil mortes anuais relacionadas ao isolamento social. No Brasil, o Estudo Longitudinal de Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brazil) aponta que três em cada dez idosos vivem socialmente isolados, com risco maior em situações de baixa renda, perda de vínculos familiares e ausência de políticas comunitárias de suporte.
Solidão e envelhecimento no Brasil
O Censo de 2022 mostrou que a população com 65 anos ou mais passou de 7,4% em 2010 para 10,9% em 2022. Em 2023, o país já contava com 33 milhões de pessoas acima de 60 anos, e a projeção é que até 2070 quase quatro em cada dez brasileiros sejam idosos.
Para Andrea Fidelis, psicóloga e especialista em inteligência espiritual, os números reforçam a importância de associar o tema ao Setembro Amarelo. “Solidão, depressão, falta de propósito e saúde mental estão profundamente ligadas. Precisamos falar sobre isso sem estigma, porque a conexão humana é uma das formas mais eficazes de prevenção”, afirma.
Em 2025, a campanha Setembro Amarelo, criada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), adota o lema “Se precisar, peça ajuda”. A proposta é reforçar o acolhimento e lembrar que fortalecer vínculos sociais também salva vidas.
Cresce a ansiedade entre crianças e adolescentes
Além do envelhecimento, especialistas alertam para o avanço dos transtornos de saúde mental entre os mais jovens. Dados do Ministério da Saúde revelam que os quadros de ansiedade e depressão entre crianças e adolescentes bateram recorde em 2025.
Entre crianças de 10 a 14 anos, o número de atendimentos por transtornos de ansiedade cresceu 2.500% em dez anos, saltando de 1.850 registros em 2014 para mais de 24,3 mil em 2024. Já entre adolescentes de 15 a 19 anos, a alta foi de 3.300% no mesmo período, chegando a 53 mil atendimentos anuais no SUS.
O fenômeno é mundial: nos Estados Unidos, a taxa de ansiedade em crianças passou de 7,1% para 10,6% entre 2016 e 2022, enquanto a depressão infantil subiu de 3,2% para 4,6%. Redes sociais, bullying, violência psicológica e mudanças no ambiente familiar estão entre os principais gatilhos apontados por especialistas.
O olhar da psicologia infantil
Para Luana Mello, coordenadora do curso de Psicologia da Faculdade Anhanguera de Porto Alegre, não é possível mapear uma única causa, mas sim múltiplos fatores associados. “Alterações hormonais, bullying, maus-tratos, divórcio dos pais, mudanças de escola e uso excessivo de redes podem desencadear problemas psíquicos”, explica.
A especialista alerta para sinais de atenção como tristeza excessiva, isolamento social, alterações no sono e apetite, dificuldades de aprendizagem e concentração. Segundo ela, esses sintomas exigem acompanhamento profissional.
O tratamento, destaca Luana, deve priorizar psicoterapia. “A terapia cognitivo-comportamental costuma ser a primeira linha de tratamento. Antidepressivos só devem ser considerados em casos de depressão moderada a grave ou em condições específicas, e apenas quando a psicoterapia isolada não for suficiente”, reforça.
Ela ainda destaca o papel das famílias na prevenção: “O tempo de qualidade compartilhado cria vínculos emocionais, memórias afetivas e noções de realidade que são fundamentais para o desenvolvimento saudável”.
7 sinais de alerta em crianças e adolescentes
Segundo a psicóloga Luana Mello, estes comportamentos podem indicar a necessidade de atenção profissional:
- Tristeza excessiva e persistente – desânimo em qualquer atividade da rotina, quase todos os dias.
- Isolamento social – afastamento de colegas e familiares, preferência por ficar sozinho.
- Alterações no sono – insônia frequente ou excesso de sono sem motivo aparente.
- Mudanças no apetite – comer muito menos ou muito mais do que o habitual.
- Dificuldades de aprendizagem – queda repentina no desempenho escolar e problemas de concentração.
- Comportamento irritadiço ou apático – reações desproporcionais ou ausência de interesse por atividades antes prazerosas.
- Déficit de atenção – dificuldade em manter foco em tarefas simples ou no convívio social.
