No RS, partidos de direita menos alinhados ao bolsonarismo podem se beneficiar
Os reflexos da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) nas eleições de 2026 ainda estão sendo medidos, mas dois efeitos são certeiros. O primeiro deles é o fortalecimento de um racha que já está em curso na direita.
Análises de cientistas políticos indicam que, apesar do capital político que o ex-presidente carrega consigo, uma sucessão de fatos têm levado a um afastamento entre aqueles considerados “bolsonaristas” e a direita mais tradicional.
“Você tem bolsonaristas raiz e tem a direita tradicional, que foi com o Bolsonaro em 2018, foi com Bolsonaro em 2022. Mas o cenário não é o mesmo”, define Silvana Krause, professora do programa de pós-graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Um dos fatos que deu o pontapé inicial nesse distanciamento foram os movimentos articulados pelo terceiro filho do ex-presidente, Eduardo Bolsonaro, que está auto-exilado nos Estados Unidos desde março deste ano. Ele foi um dos responsáveis pelas sanções impostas pelo governo norte-americano aos produtos brasileiros.
No fim de julho, o presidente Donald Trump impôs uma tarifa adicional de 40% sobre uma série de produtos brasileiros, mas deixando uma lista com 700 exceções. Após sucessivas reuniões e um encontro entre Trump e o presidente Lula (PT), na última quinta-feira, a lista de exceções aumentou para mais de 900 produtos.
Apesar disso, as ações de Eduardo Bolsonaro não foram vistas com bons olhos entre parte dos políticos da chamada direita tradicional, que mantém boa parte do seu eleitorado entre os empresários. E outros fatores, em maior ou menor medida, também podem ser adicionados a esse imbróglio, como as circunstâncias em que o ex-presidente foi preso preventivamente, ao violar, com ferro de solda, a tornozeleira eletrônica.
Um dos exemplos práticos dessa divisão foi a criação de um bloco parlamentar, pelo presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos), sem o PL e o PT. Mas com partidos como União Brasil, PP, PSD Republicanos e MDB.
Para Rodrigo Stumpf Gonzalez, cientista político e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), o divisor de águas entre esses dois núcleos deve ocorrer durante as negociações sobre o projeto de anistia. “Em prisão domiciliar, a discussão da anistia ficava mais abstrata. A prisão traz uma exigência das pessoas se posicionarem”, explicou. Somados, esses elementos vão afastando a direita tradicional, cujas pautas são focadas em questões envolvendo a economia e o mercado, da direita mais bolsonarista, que detém ligação com a pauta dos costumes.
“Defender a anistia só pelo Bolsonaro é um peso que a direita vai precisar escolher se quer carregar”, elenca o professor.
Enquanto isso ocorre, o outro efeito da prisão do ex-presidente – e que está intrinsecamente aliado a essa “divisão de direitas” – ganha corpo: as discussões sobre o pleito de 2026. “A prisão ajuda na necessidade de tomada de decisões. Hoje, Bolsonaro já não é mais visto com a mesma capacidade de mobilização do passado. A questão da prisão e da condenação fazem com que alguns setores atinjam um discurso mais pragmático”, afirma Gonzalez.
Com a confirmação da prisão de Bolsonaro, as tratativas em torno de quem será o nome a representar o ex-presidente nas urnas são essenciais na moldagem das chapas dentro dos estados, que aguardam o desenrolar nacional.
Como fica esse cenário no Rio Grande do Sul?
No Rio Grande do Sul, o deputado federal Luciano Zucco é o pré-candidato ao Palácio Piratini pelo bolsonarismo. Com a pré-campanha na rua, o líder da oposição na Câmara dos Deputados conta com uma chapa quase completa, com as vagas ao Senado já definidas: os deputados federais Sanderson (PL) e Marcel van Hattem (Novo). Ele ainda precisa, entretanto, de pré-candidato à vice.
E é nesse cenário que a prisão do ex-presidente pode dificultar as negociações para Zucco, que busca atrair partidos da direita, como PP, Republicanos e União Brasil. Isso porque essas siglas estão mais alinhadas a uma direita “mais tradicional”, ainda que Bolsonaro tenha um capital político elevado no RS.
“Mas devemos compreender que essa relação (de capital político) não se dá por meio dos partidos, mas especificamente por causa da figura do ex-presidente. Agora, a prisão de Bolsonaro dá mais espaço para outros campos políticos”, afirma Augusto Neftali, cientista político e professor da Escola de Humanidades da PUCRS.
Campo esse em que o PP, por exemplo, tem mais trânsito. “PP é a direita raiz”, definiu o professor da Ufrgs, Rodrigo Stumpf González. O partido elegeu o maior número de prefeitos no Estado em 2024, tendo um perfil bem municipalista e relações fortes com a defesa do agronegócio. Atualmente, os Progressistas contam com o deputado federal Covatti Filho como pré-candidato ao governo do Estado, mas essa ainda não é uma certeza, visto que parte do partido defende uma aliança com Zucco e, outra, com o pré-candidato do MDB, o vice-governador Gabriel Souza.
Com isso, a divisão das direitas pode acabar dificultando uma aliança do PP com o PL de Zucco, visto que dá ao partido mais capacidade de barganha – tanto em defesa da candidatura própria, quanto nos argumentos daqueles que são a favor de uma chapa com o MDB.
Além disso, com o ex-presidente fora das urnas, a capacidade de transferência direta de votos fica mais difícil. “Uma coisa é o Bolsonaro, candidato à presidente, dizer: meu candidato no RS é o Zucco. Outra coisa é alguém que não é o Bolsonaro, e pode ser o Tarcísio (de Freitas) ou mesmo os filhos (do ex-presidente). Essa transferência (de votos) é menos potente, o que permite maior concorrência pelo voto individual dos eleitores”, explica Neftali.
Outro partido que pode aproveitar esse embalo é o MDB, que neste domingo referendou a pré-candidatura do vice-governador Gabriel Souza ao Piratini. Tanto na tentativa de atrair o eleitor que não se identifica tanto com o bolsonarismo, ainda que seja um eleitor de direita, quanto na busca por partidos com esse mesmo perfil. Para isso, contudo, o vice-governador precisa conquistar um ativo que ainda lhe falta: maior visibilidade.
