Desde o início de outubro, famílias seguem fora de casa e lidam com prejuízos materiais e de saúde enquanto aguardam a recuperação dos apartamentos atingidos
Quase dois meses após o incêndio provocado por um ônibus de turismo que desceu desgovernado a rua Espírito Santo, no Centro Histórico de Porto Alegre, ainda há moradores do edifício afetado que seguem sem previsão de retorno para casa. Ao mesmo tempo em que o prédio passa por avaliações e orçamentos nos apartamentos atingidos, parte dos moradores enfrenta sequelas e prejuízos que vão além dos danos estruturais.
Um deles é o servidor público aposentado, Mário Floriano, de 70 anos, proprietário de um apartamento do primeiro andar, que foi um dos mais atingidos pelas chamas. Ele e a esposa não puderam voltar a morar no local desde o dia do acidente. “Estamos a mais de 45 dias fora de casa. Nosso apartamento está inabitável. O sofrimento a que fomos submetidos ultrapassa em muito o que pode ser considerado um mero dissabor”, relata.
A seguradora do edifício arca com os danos estruturais e com o aluguel temporário, onde o casal está morando “literalmente acampado”, como descreve Floriano. Ele afirma ter procurado a empresa proprietária do ônibus, mas diz ter recebido apenas respostas evasivas. “Fiz uma proposta razoável em razão das nossas perdas e só consegui duas respostas do tipo: ‘estou vendo com a seguradora’”, afirma.
Além dos danos materiais, a esposa de Mário sofreu agravamento de um quadro de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) após inalar fumaça durante o incêndio. Ela ficou internada e agora depende de oxigênio domiciliar por 20 horas ao dia. “O diagnóstico era de DPOC moderada. Depois do incêndio, ela desmaiou duas vezes, ficou vários dias internada e saiu do hospital com recomendação de oxigênio permanente. Minha esposa terá que usar oxigênio pelo resto da vida”, conta.
No dia do acidente, ela estava sozinha no apartamento quando ouviu a explosão e viu as chamas invadirem o quarto do casal pela sacada. Os dois cachorros do casal foram resgatados por ela em meio à fumaça, mas a saída do prédio ficou bloqueada por veículos prensados pelo ônibus. “Cerca de 30 moradores tentavam sair sem sucesso até que bombeiros conseguiram puxar um dos carros e abriram um vão para evacuar”, lembra Floriano.
O casal foi um entre os moradores que tiveram de deixar o prédio e ainda não puderam retornar. Outro apartamento também permanece interditado e os inquilinos que locavam a unidade optaram por se mudar. “Creio que este ano não retorno”, prevê Floriano.
“Prioridade é acolher todos os envolvidos”, diz empresa
Questionada sobre o suporte dado aos moradores do prédio, a empresa de turismo proprietária do ônibus se manifestou através do advogado Charles Zamboni, do escritório Italo e Pasquali Advogados que acompanha o caso. Em nota (confira no final do texto), ele afirma que estão sendo realizados os reembolsos diretamente aos alunos e às famílias, independentemente das tratativas que ainda estão em andamento com a seguradora responsável.
Zamboni também afirma que a empresa aguarda por posicionamentos da seguradora no tocante aos danos morais solicitados por alguns moradores. “Embora a apólice exista e esteja sendo acionada conforme previsto, alguns procedimentos internos da seguradora ainda estão em análise, o que tem gerado prazos maiores do que o esperado”, justifica.
Segundo o advogado, diante deste prazo, a empresa optou por assumir prejuízos materiais e psicológico dos estudantes, arcando com recursos próprios para garantir que ninguém ficasse desassistido. “Já realizamos o reembolso de mais de 15 aparelhos celulares e outros pertences pessoais, incluindo itens de alto valor, sempre com foco em agilizar o atendimento às famílias e evitar qualquer transtorno adicional para a comunidade vacariense”, acrescenta. Ele também relata que a prioridade é “acolher, reparar e apoiar todos os envolvidos”.
Confira na íntegra a nota da empresa:
“A empresa está realizando os reembolsos diretamente aos alunos e às famílias, independentemente das tratativas que ainda estão em andamento com a seguradora responsável. Os condôminos optaram por acionar os seus próprios seguros do prédio no tocante aos bens materiais, estamos aguardando posicionamentos da seguradora no tocante aos danos morais solicitados por alguns moradores.
Embora a apólice exista e esteja sendo acionada conforme previsto, alguns procedimentos internos da seguradora ainda estão em análise, o que tem gerado prazos maiores do que o esperado.
Diante disso, a Vitor Mattes F. Viagens e Turismo LTDA optou por assumir de imediato os prejuízos materiais e psicológico dos estudantes, arcando com recursos próprios da empresa para garantir que ninguém ficasse desassistido.
Já realizamos o reembolso de mais de 15 aparelhos celulares e outros pertences pessoais, incluindo itens de alto valor, sempre com foco em agilizar o atendimento às famílias e evitar qualquer transtorno adicional para comunidade Vacariense.
A prioridade da empresa continua sendo acolher, reparar e apoiar todos os envolvidos, ao mesmo tempo em que seguimos colaborando com as autoridades e dando andamento aos trâmites legais com a seguradora.
Charles Zamboni
Italo e Pasquali Advogados.”
Relembre o caso
O que era para ser um passeio escolar, por pouco não terminou em uma tragédia no Centro Histórico de Porto Alegre na tarde de sexta-feira, 3 de outubro. Um ônibus de excursão que transportava 57 estudantes de Vacaria, nos Campos de Cima da Serra, para uma visita ao Palácio Piratini, causou um acidente que envolveu ao menos 10 veículos, antes de pegar fogo e danificar um prédio.
Conforme relatos, o veículo ficou preso em cabos de telefonia e, no momento em que o motorista desceu para tentar retirar os fios, o ônibus começou a descer pela rua Espírito Santo; Pelo caminho, atingiu oito carros, uma van e uma motocicleta, depois acabou incendiando. O fogo se espalhou, atingindo a fachada e apartamentos de um prédio residencial.
O ônibus levava adolescentes de 15 a 17 anos e dois professores. Após a visita ao Palácio Piratini, o grupo seguiria para outro ponto do passeio, no BarraShoppingSul. O motorista relatou que o coletivo colidiu com fios de energia no primeiro terço da rua Espírito Santo, acionou o freio de mão e desceu para verificar o problema. Nesse momento, o ônibus começou a descer sozinho, com os passageiros a bordo, até colidir com os veículos estacionados e parar em frente a um prédio residencial, onde as chamas ganharam força.
A Brigada Militar e o Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul (CBMRS) foram acionados imediatamente. Em cerca de 30 a 40 minutos, as equipes conseguiram controlar o incêndio, que atingiu três apartamentos do edifício
Todos os estudantes foram retirados do ônibus a tempo, com ajuda de populares que quebraram os vidros. Ao menos 10 pessoas precisaram de atendimento médico por inalação de fumaça, entre passageiros e moradores do prédio. Nenhuma vítima sofreu ferimentos graves e os casos mais preocupantes foram encaminhados para atendimento.
