Com dívida próxima de R$ 1 bilhão e forte dependência de receitas de TV e patrocínios, clube pode ver suas entradas caírem até 50% em caso de queda para a Série B
Com o risco de rebaixamento novamente rondando o Beira-Rio, o Inter vive dias de tensão dentro e fora de campo. A ameaça de queda para a Série B não representa apenas um abalo esportivo, mas um potencial colapso financeiro para um clube que já convive há anos com sérias dificuldades nas contas.
O tamanho do buraco ainda é incerto, mas a equação é conhecida: um clube que cai para a segunda divisão fica, invariavelmente, mais pobre. A previsão de queda nas receitas varia, mas há consenso entre especialistas de que o impacto gira entre 30% e 50% das receitas recorrentes. O cenário é ainda mais grave quando o atingido é um clube endividado e fragilizado financeiramente, exatamente o caso do Inter.
Atolado em dívidas há pelo menos uma década, o clube deve encerrar o ano com passivo próximo de R$ 1 bilhão, o que representa um custo anual de cerca de R$ 80 milhões apenas em juros. Em 2024, mesmo com receita total de R$ 621 milhões — impulsionada por uma venda recorde de jogadores que somou R$ 258,3 milhões — o Inter fechou o balanço com déficit de R$ 34,5 milhões.
Em caso de rebaixamento, a previsão é de queda acentuada nas receitas de TV, patrocínios, quadro social e bilheteria. O contrato atual de direitos de transmissão, que deve render aproximadamente R$ 140 milhões nesta temporada, prevê uma redução de até 90% para clubes que disputam a Série B.
O impacto também alcança os patrocinadores. A Alfa, parceira master do clube, paga R$ 50 milhões anuais fixos, além de bônus por metas esportivas. O contrato, contudo, prevê multas e reduções em caso de descenso, o que agravaria ainda mais o fluxo de caixa. Além disso, a perda de atratividade na segunda divisão costuma provocar queda no número de sócios e redução nas receitas de bilheteria.
Outro ponto crítico é a desvalorização do elenco. Jogadores que se destacam na Série B costumam ser negociados por valores bem inferiores aos de atletas da elite. Isso diminui o potencial de arrecadação com transferências, uma das principais fontes de receita do clube nos últimos anos.
“Cair é o combo do caos. Há uma queda importante das receitas líquidas, impedindo os pagamentos, inclusive de juros, e uma incapacidade de gerenciamento do fluxo de caixa. O clube se torna um automóvel sem direção trafegando em uma estrada sinuosa. Ninguém sabe o que vai acontecer após a próxima curva”, afirmou o advogado Bruno Chatack, especialista em finanças no futebol.
Segundo Chatack, o Inter não chegaria à falência — algo praticamente inexistente no futebol brasileiro —, mas enfrentaria um período de forte retração e risco de default, termo que descreve a incapacidade de honrar compromissos financeiros.
“O Inter não vai falir porque um clube de futebol não vai à falência. O que vai acontecer é uma diminuição drástica de investimentos e uma incapacidade de honrar os compromissos. O clube entraria no que chamamos de default, que é uma incapacidade geral de pagamento de suas dívidas, que se alongam e crescem exponencialmente devido à incidência de juros”, explicou.
O default, no jargão econômico, ocorre quando uma entidade — seja uma empresa, governo ou clube — não consegue cumprir obrigações financeiras, como o pagamento de empréstimos, fornecedores, impostos ou direitos a outros clubes. Em casos assim, as dívidas se acumulam, os prazos se estendem e o custo dos juros se multiplica, criando um ciclo difícil de reverter.
