Presidente colorado enfrenta críticas da torcida, desgaste político interno e enfraquecimento de sua base de apoio em meio à crise do clube dentro e fora de campo
A travessia de Alessandro Barcellos pelo comando do Inter está próxima de chegar ao final do seu quinto ano cercada de turbulências. Eleito no final de 2020 para um mandato de três anos, o dirigente buscou e conquistou a reeleição em 2023, garantindo-se à frente do clube até o fim de 2026. Quando concluir seu ciclo, Barcellos será o presidente mais longevo da história colorada, mas dificilmente atravessou um período tão solitário e desgastante quanto o atual.
O dirigente vive uma crise sem precedentes. Sob sua gestão, o Inter acumula decepções em campo, enfrenta dificuldades financeiras e convive com resultados preocupantes também fora das quatro linhas, como os sucessivos insucessos nas categorias de base e o declínio do futebol feminino, que sequer chegou à final do Gauchão deste ano. Além disso, o clube é alvo frequente de cobranças públicas por outros clubes de dívidas não pagas. A soma de todos esses fatores levou a uma pressão generalizada, que atinge o clube em todas as frentes e isola cada vez mais o presidente.
Barcellos, antes figura central nas comunicações do clube, passou a adotar um perfil discreto. Reduziu suas aparições públicas e quase não concede entrevistas. A última vez em que falou oficialmente foi em 28 de outubro, na semana que antecedeu o empate sem gols com o Atlético-MG, no Beira-Rio. De lá para cá, o silêncio se tornou estratégia, e também reflexo de um ambiente que lhe é hostil. Em todas as vezes em que aparece em público, o presidente é recebido com vaias e críticas.
A insatisfação da torcida transbordou das arquibancadas para as ruas e redes sociais. Em jogos recentes, torcedores distribuíram panfletos cobrando mudanças na condução do clube e questionando diretamente a gestão de Barcellos e de outros dirigentes do conselho de gestão. Os protestos, que começaram de forma pontual, tornaram-se cada vez mais frequentes, simbolizando o esgotamento da paciência dos colorados.
Mas o desgaste não vem apenas das arquibancadas. Internamente, Barcellos também vê ruir a base política que o sustentou nas duas eleições. Aliados de primeira hora começam a se movimentar em busca de caminhos próprios. Pelo menos um integrante da atual diretoria já manifestou em reuniões políticas o desejo de concorrer à presidência do Inter no final do próximo ano. Outro movimento que compõe a base da gestão, o Povo do Clube — que tem Ivandro Morbach como um dos vice-presidentes do Conselho de Gestão —, também avalia lançar candidatura própria.
Esses movimentos indicam um claro enfraquecimento da sustentação política de Barcellos. A fragmentação de sua base pode impedir que ele consiga indicar um sucessor que represente a continuidade de sua administração. A tendência é que o próximo pleito colorado ocorra em meio a um ambiente de disputa intensa, marcado por críticas e a promessa de renovação.
A trajetória de Barcellos no Inter começou com o discurso de modernização administrativa e recuperação do protagonismo esportivo. Passados quase cinco anos, porém, o cenário é bem diferente. O clube, que ainda luta contra o rebaixamento no Brasileirão, enfrenta um desequilíbrio financeiro crescente. Se escapar da queda, Barcellos pretende reajustar a rota em janeiro, fazendo mudanças inclusive no departamento de futebol para, no mínimo, não sofrer tanto no último ano de sua gestão.
