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Um novo ciclo: resíduos têxteis viram oportunidade para mulheres no RS

Projeto gaúcho resulta em geração de renda e autonomia para público feminino

É fácil acumular roupas no armário. Guardar peças que não se usa mais é um hábito muito comum. Difícil mesmo é reconhecer quando elas já não fazem parte da vida de quem veste — e mais raro ainda é pensar em novos destinos para elas.

Roupas que deixaram de servir, não acompanham o estilo pessoal ou que foram desgastadas pelo tempo e pelo uso seguem ocupando espaço, mesmo quando o uso já não faz mais parte da rotina. E, diante da dúvida sobre o que fazer com aquilo que está parado, o descarte ainda é, para muitos, o caminho mais fácil.

As possibilidades, no entanto, são diversas, e cada vez mais urgentes. Doações, brechós, trocas, reformas (ucpcycling) ou reuso criativo ajudam a prolongar a vida útil das peças e evitam que tecidos se transformem em resíduo prematuramente. Essas práticas contribuem para a lógica da economia circular, que propõe a reinserção de materiais em novos ciclos produtivos, em vez de tratá-los como lixo.

Ainda assim, no Brasil, mais de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis são descartadas por domicílios todos os anos, segundo a consultoria S2F Partners. Em 2024, cada residência brasileira jogou fora, em média, 44 quilos de roupas e calçados, conforme dados da Agência Brasil.

O setor atual da moda segue um caminho previsível: produzir, consumir, descartar. Ao longo do tempo, esse fluxo acelerado e desenfreado foi normalizado, impulsionado por um modelo de produção em massa, preços baixos e uma ideia constante de novidade, o famoso fast fashion. Roupas seguem tendências que saem de moda com a mesma rapidez que entram, sem tempo para cumprir todo o seu potencial de uso.

Não por acaso, a indústria têxtil se tornou uma das mais poluentes do planeta. Estima-se que o setor seja responsável por entre 2% e 8% das emissões globais de gases de efeito estufa e consuma mais de 200 trilhões de litros de água por ano — o equivalente a cerca de 86 milhões de piscinas olímpicas, segundo o levantamento mencionado anteriormente.

Diante do acúmulo de resíduos e da urgência por mudanças, surgem propostas que enxergam nos descartes não um fim, mas um ponto de partida. Em diferentes cantos do país, coletivos, marcas e organizações têm apostado em soluções criativas que reconhecem na regeneração uma resposta possível contra a situação atual do mercado. Logo, a economia circular deixa de ser apenas um conceito alternativo e passa a se afirmar como prática comum.

Mais do que prolongar a vida útil das peças, essas iniciativas propõem reconstruir sentidos a partir do que foi descartado. Tecidos que antes pareciam sem função retornam à cadeia produtiva sob novas formas, costurados por outras mãos, em outros contextos.

Foi com esse olhar que nasceu o Recria-se. Criado em 2024 pelo Instituto Justiça, durante o período das enchentes no Rio Grande do Sul, o projeto surgiu com o objetivo de transformar o excesso de doações em possibilidades. Assim, toneladas de roupas que se acumulavam nos centros de distribuição e que não teriam uso, tornaram-se matéria-prima para algo novo.

Em parceria com a Ciclo Reverso, organização de Porto Alegre que atua com economia circular e capacitação de mulheres, o Recria-se segue convertendo resíduos têxteis em novos produtos a partir do empoderamento social.

“O projeto para a gente é muito mais do que uma resposta criativa para transformar os resíduos. É uma história de superação e empoderamento social, e ainda tem o plus da proteção do meio ambiente”, explica Indira Dias, fundadora do Instituto Justiça.

🧵 Empoderamento que costura novas histórias

As mulheres do Recria-se trabalham com tecidos que poderiam ter sido descartados, mas que ganham uma nova cara depois de passar por suas mãos. Além de costurar peças, o projeto também proporciona a elas a construção de uma dinâmica de trabalho singular, com mais autonomia, flexibilidade e dignidade.

Bianca das Neves, de 56 anos, é uma das participantes do projeto. Viúva e mãe de dois filhos, vive com o mais novo, de 18 anos. Trabalhou por muitos anos como diarista, mas a pandemia e, depois, as enchentes no Rio Grande do Sul reduziram drasticamente sua fonte de renda.

Hoje, é da Ciclo Reverso que vem o sustento da casa. Foi por meio da organização que conheceu o Recria-se e passou a integrar a equipe de costura. No processo, também aprendeu outras técnicas manuais, como o macramê, que agora fazem parte da sua rotina de produção.

“Eu sou uma baita de uma artesã agora, eu faço de tudo”, diz orgulhosa.

Os ateliês da Ciclo funcionam em diferentes comunidades de Porto Alegre e da região metropolitana, como Guaíba e Canoas, mas muitas participantes também optam por trabalhar de casa. No Morro da Cruz, Josielda Gonçalves, mãe de uma menina de 11 anos, viu no projeto uma forma de conciliar renda e cuidados com a filha. Ela começou a costurar durante a pandemia e, com o Recria-se, passou a produzir de casa para não deixar a pequena sozinha.

O modelo proposto pelo projeto é pensado para atender a essas realidades. Segundo Liliane Linhares, diretora da Ciclo Reverso, a proposta não é replicar as dinâmicas tradicionais do mercado de trabalho, mas criar um ambiente que respeite os limites e promova a autonomia das mulheres.

“Elas estão trabalhando para autonomia, para promoção, para autogestão, e a gente dá suporte. […] O objetivo não é reproduzir as relações de trabalho de uma empresa normal. Estamos falando de mulheres que são mães atípicas, mães solo, que têm dificuldade de sair de casa ou da comunidade para trabalhar, então elas precisam ter flexibilidade no horário de trabalho, de poder trabalhar no horário que pode, no dia que pode — e se pode”, explica Liliane.

Do resíduo ao produto, e de volta às empresas

Com uma metodologia própria de reaproveitamento têxtil, a Ciclo Reverso envolve capacitação de mulheres, regeneração de materiais e responsabilidade ambiental compartilhada com grandes empresas. Além da produção artesanal realizada nos grupos comunitários, há também um trabalho de articulação para que resíduos corporativos também encontrem um fim condizente com seus ciclos.

“Muitas empresas que nos procuram querem fazer doação de resíduo, e nessa convivência com a gente, elas entendem que resíduo não pode ser doado, que existe uso mais nobre para ele”, diz Liliane.

Mais do que reaproveitar tecidos, a iniciativa busca reconstruir sentidos e responder a uma demanda que é também legal. De acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010), as empresas são responsáveis por garantir a destinação ambientalmente adequada dos resíduos gerados em suas atividades, inclusive os que parecem ainda reutilizáveis, como uniformes corporativos e peças promocionais fora de uso.

“As empresas não entendem que o uniforme usado, por exemplo, é resíduo também. Aí querem doar. Só que o uniforme usado não é roupa. Ele é um resíduo que pode ser transformado em matéria-prima, mas ele em si não é matéria-prima”, complementa.

A organização então recebe os resíduos têxteis, transforma em novos produtos, e, muitas vezes, devolve para a própria empresa de origem. “A ideia do ciclo reverso mesmo é essa: a empresa passa o resíduo, a gente transforma em produtos, e a própria empresa que gerou o resíduo é quem compra o produto”, explica.

Na prática, esse ciclo depende de uma dinâmica pouco usual: a compra de resíduos por tonelada. O Instituto Justiça adquire o material com apoio de doadores e parceiros, garantindo que nada se perca no processo.

Em galpões comunitários, as mulheres participantes fazem a triagem, retiram botões e zíperes e lavam as peças. O que pode ser aproveitado segue para as empresas que transformam o resíduo em fios e tecidos. O que não serve para a confecção de novos produtos é destinado a cimenteiras, onde se torna matéria-prima para a construção civil.

“Não tem descarte, tudo vira alguma coisa”, resume Indiara Teixeira, fundadora do Instituto Justiça.

O processo, além de fechar o ciclo econômico, dá novos significados ao que antes seria tratado apenas como sobra. Bolsas, estojos e ecobags produzidos pelas mulheres do Recria-se retornam às empresas como brindes corporativos, kits para funcionários ou materiais institucionais.

Mesmo com nove grupos organizados, mais de 60 mulheres capacitadas e uma boa estrutura já em funcionamento, o desafio é manter o fluxo de materiais e garantir a continuidade da produção.

Segundo Indiara Teixeira, fundadora do Instituto Justiça, o volume de resíduos não é o problema, o que falta é apoio constante para que o projeto siga ativo e com impacto. “Enquanto a gente tiver resíduo, a gente vai dar um jeito de conseguir doador, e resíduo no mundo é o que não falta”, conclui.

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